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Gerenciadora

Lean Construction para quem toca obraEdição de 23 de outubro de 2026

Os onze princípios de Koskela, no canteiro

As listas de princípios do Lean Construction mudam de tamanho conforme a fonte. Os onze que Koskela propôs para a construção, cada um com um exemplo de obra, e de onde vêm as listas de cinco.

Conceito · Redação Gerenciadora ·

Peça os princípios do Lean Construction a duas fontes e é provável que venham listas de tamanhos diferentes. A mais curta costuma ter cinco itens. A mais longa tem onze. Nenhuma está inventada. Elas vêm de fontes diferentes, escritas para leitores diferentes.

A lista de cinco é a do pensamento enxuto em geral. O glossário do Lean Enterprise Institute reproduz os cinco passos adaptados de Womack e Jones (1996): definir o valor do ponto de vista do cliente final, mapear o fluxo de valor e cortar o que não cria valor, fazer o trabalho fluir, deixar o cliente puxar e buscar a perfeição repetindo o ciclo. Ela foi pensada para qualquer tipo de empresa, da fábrica ao escritório.

A de onze foi escrita para a construção. Lauri Koskela a propôs em 1992, num relatório técnico do CIFE, na Universidade Stanford, e a resumiu no ano seguinte num capítulo sobre produção enxuta na construção (Koskela, 1993). O lugar dessa lista no conjunto do método está no guia Lean Construction na obra. Este artigo segue a versão de 1993, com um exemplo de canteiro para cada item. Os exemplos são ilustrativos, montados para mostrar o princípio, e não relatos de obra.

Conversão e fluxo, antes da lista

Os onze princípios partem de uma ideia só. Para Koskela, toda produção tem conversões, que mudam o material, e fluxos, que ligam uma conversão à seguinte: espera, transporte e inspeção. As duas consomem tempo e custo, e só a conversão agrega valor. A gestão tradicional, escreve ele, cuida só das conversões.

Os princípios são regras práticas para projetar e melhorar os fluxos. Koskela observa que eles valem para o processo inteiro e para cada parte dele, e que servem tanto à produção física quanto à de informação, como o projeto. Também diz que valem para a produção em série e para a peça única, o que inclui a obra.

1. Reduzir a parcela de atividades que não agregam valor

É o princípio de partida, e Koskela põe entre parênteses o outro nome dessas atividades: desperdício. Na obra, é o servente levando bloco de um lado para o outro do terreno porque o caminhão descarregou longe do guincho. Ou o pedreiro que desce dois andares para buscar o nível.

O caminho é medir antes de cortar. Uma manhã acompanhando uma frente, com relógio, mostra quanto tempo vai para assentar e quanto vai para buscar material e esperar. A lista de Ohno com endereço no canteiro está em desperdícios na obra.

2. Aumentar o valor do que sai, olhando o que o cliente pede

Koskela fala em considerar de forma sistemática as exigências do cliente. Na obra, há dois clientes. O de fora é quem recebe o apartamento. O de dentro é a equipe seguinte.

Para o reboco, a alvenaria tem valor quando sai no prumo e libera o pavimento inteiro. A mesma metragem espalhada por cinco andares, com um trecho aberto em cada um, vale pouco para quem vem atrás. O verbete de valor do glossário resume a ideia.

3. Reduzir a variabilidade

Variabilidade é a diferença entre o que foi planejado e o que acontece, e ela passa de uma equipe para a seguinte. Kim e Ballard (2000) dão um exemplo numérico. Uma equipe deveria produzir 25 unidades por semana durante um mês. Num caso, produz 25 toda semana. No outro, produz 10, 30, 15 e 45. O mês fecha com 100 nos dois casos, e só no segundo a equipe que depende dela sofre.

No Last Planner, o filtro do plano semanal cuida dessa parte. Só entra tarefa liberada, e a promessa da semana passa a sair inteira com mais frequência.

4. Reduzir o tempo de ciclo

Tempo de ciclo é o tempo que uma unidade leva para atravessar o processo inteiro. Num edifício, é quanto um pavimento demora da primeira fiada de alvenaria até o contrapiso pronto. Dentro desse tempo, boa parte é pavimento parado, esperando a próxima equipe.

A linha de balanço mostra essas esperas como o espaço entre duas linhas. Encurtar o ciclo é, em grande parte, tirar espera sem tirar o pulmão que protege as equipes de um atraso pequeno.

5. Simplificar, reduzindo passos, peças e ligações

Menos passos são menos lugares onde algo pode dar errado. Frandson, Berghede e Tommelein (2013) relatam uma fachada de hospital em que a estrutura leve, montada peça por peça no local, passou no meio do caminho a chegar em painéis. A troca entrou no escopo e, depois dos três primeiros planos de produção, que não foram cumpridos, o plano com takt passou a ser cumprido.

Na obra residencial, o equivalente pode ser o kit de instalação montado fora do pavimento ou a modulação da alvenaria pensada no projeto, para o bloco não ser recortado na hora.

6. Aumentar a flexibilidade do que sai

É a capacidade de entregar variações sem desmontar o processo. Na incorporação, o exemplo mais comum é a personalização de planta. Se cada pedido do cliente vira uma exceção tratada no pavimento, o fluxo trava. Se as opções têm prazo para serem escolhidas e entram no plano antes de a equipe chegar ao andar, a variação cabe na sequência.

7. Aumentar a transparência do processo

Transparência é o processo se comunicar com as pessoas. Tezel e coautores (2010), numa pesquisa em nove construtoras de Porto Alegre e Fortaleza, citam os caminhos que Koskela (1992, citado por Tezel et al., 2010) propõe para isso. Entre eles estão os dispositivos visuais que mostram na hora o estado do processo e as medições que tornam visível o que o olho não vê.

No canteiro, é a placa na porta do shaft com a data da inspeção, ou o palete marcado com o pavimento de destino. Exemplos que não pedem software estão em gestão à vista na obra.

8. Focar o controle no processo inteiro

Quando cada empreiteiro é controlado só pelo próprio avanço, ninguém responde pelo pavimento. Kim e Ballard (2000) criticam o método do valor agregado por tratar cada atividade como independente das outras. Uma hora agregada vale o mesmo, liberando ou não a equipe seguinte.

Controlar o processo inteiro, na obra vertical, é olhar o pavimento: quando ele entrou na alvenaria e quanto tempo passou parado até ficar pronto para o contrapiso.

9. Levar a melhoria contínua para dentro do processo

Melhoria que depende de campanha acaba com a campanha. Koskela pede que ela faça parte da rotina. No Last Planner, a rotina já tem o lugar certo: a causa anotada para cada tarefa não cumprida, toda semana, e a análise das causas que mais se repetem. A técnica dos cinco porquês, feita na própria reunião, é o passo seguinte. O verbete de kaizen traz o termo japonês para essa ideia.

10. Equilibrar a melhoria do fluxo com a da conversão

Koskela não manda esquecer a conversão. No mesmo texto de 1993, ele descreve a ordem que vê na produção enxuta: primeiro, as atividades que agregam valor melhoram com ajuste interno e melhoria contínua do que já existe. Só depois de esgotar esse potencial entram os grandes investimentos em tecnologia nova.

Na obra, é a diferença entre comprar uma argamassadeira maior e descobrir por que a equipe passa meia hora por dia esperando argamassa. A primeira mexe na conversão. A segunda mexe no fluxo, e costuma custar menos.

11. Fazer benchmarking

Comparar o próprio processo com o de quem faz melhor. Para quem acompanha PPC, há régua brasileira publicada. Bortolazza, Costa e Formoso (2005) reuniram 115 obras acompanhadas pelo NORIE, da UFRGS, com PPC médio de 70%. Os limites dessas amostras, e o que elas dizem sobre as causas de falha, estão em Lean Construction no Brasil.

O benchmark mais útil, ainda assim, costuma ser interno: a obra de hoje contra a obra anterior da mesma construtora, com as mesmas categorias de causa.

Onze princípios não se aplicam de uma vez

Os princípios puxam uns aos outros. Um processo transparente mostra a variabilidade mais cedo, e menos variabilidade encurta o ciclo. Ainda assim, ninguém implanta os onze numa segunda-feira.

Na opinião da Redação, dois deles dão o melhor ponto de partida para uma obra que nunca tentou: reduzir o que não agrega valor, porque se vê no primeiro dia de observação, e aumentar a transparência, porque um quadro na parede custa pouco. O roteiro para quem tem poucas equipes e pouco tempo está em Lean em obra pequena.

Quem quiser conferir o original encontra o relatório de 1992 na biblioteca do portal.

Referências

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