Planilha de PPC: as colunas que fazem o número servir
Oito colunas e duas abas. Como montar a planilha de PPC da obra para que, além do percentual, ela mostre por que as tarefas não saíram e se a tendência melhora.
Oito colunas bastam. A planilha de PPC que funciona na obra cabe numa tela e tem duas abas: uma com as tarefas de cada semana e outra que junta as causas. O resto é enfeite.
O erro comum é o oposto. A planilha nasce com o percentual da semana numa célula grande e colorida, e a coluna de causa fica vazia ou escrita de um jeito diferente a cada sexta. Dois meses depois, o número existe e ninguém sabe o que fazer com ele.
Os nomes de tarefa, pavimentos e quantidades deste texto foram inventados para o exemplo. As colunas e as contas servem para qualquer obra que planeje por semana.
A conta vem antes da planilha
Ballard (2000), na tese que descreve o Last Planner System, define o PPC como o número de atividades planejadas que foram concluídas, dividido pelo total de atividades planejadas, em percentual. A mesma tese diz o que o número mede: até que ponto o compromisso do encarregado foi cumprido.
O PPC é o indicador do Last Planner, a parte de planejamento do guia de Lean Construction do portal. Daí sai a regra que a planilha precisa respeitar. A tarefa vale um ou zero. A alvenaria que fechou 80% do pavimento entra como não concluída, porque a equipe seguinte não consegue entrar num pavimento pela metade. Quem quer acompanhar o avanço físico em percentual faz isso em outra planilha, a de medição.
O que significa o número que sai da conta, e qual faixa vale perseguir, está no artigo sobre o percentual do plano concluído. Aqui o assunto é montar a ferramenta.
As oito colunas
A aba principal tem uma linha por tarefa prometida na reunião. As colunas, da esquerda para a direita:
- Semana. O número da semana da obra, ou a data da segunda-feira. É o que permite filtrar e somar depois.
- Tarefa. O que vai ser feito, onde e quanto, escrito de modo que dê para dizer na sexta se terminou. “Alvenaria do 7º, fachada norte” passa. “Adiantar alvenaria” não passa.
- Local. Pavimento ou zona, em campo separado. Ajuda a cruzar com a medição.
- Equipe. Quem prometeu. O nome do encarregado vale mais que o nome do empreiteiro.
- Liberada. Sim ou não, preenchido na hora em que a tarefa entra no plano. A tarefa tinha tudo para começar, do material ao serviço anterior pronto?
- Concluída. Sim ou não, preenchido na reunião seguinte. Sem meio-termo.
- Causa. Uma frase curta, escrita na hora, com o encarregado presente.
- Categoria. Escolhida numa lista fechada. É a coluna que vai ser somada.
A coluna Liberada é a que mais falta nas planilhas que circulam por aí. Ela separa a tarefa que falhou na execução da tarefa que já entrou no plano sem condição de sair.
Um exemplo de semana
A tabela abaixo é uma semana ilustrativa de uma torre em fase de vedação e instalações. Dez tarefas prometidas, sete concluídas.
| Tarefa | Local | Equipe | Liberada | Concluída | Causa | Categoria |
|---|---|---|---|---|---|---|
| Alvenaria interna | 6º | Alvenaria | Sim | Sim | ||
| Alvenaria da fachada norte | 7º | Alvenaria | Sim | Não | Bloco entregue na quarta à tarde | Materiais |
| Eletrodutos embutidos | 5º | Elétrica | Sim | Sim | ||
| Prumada de água fria | 4º e 5º | Hidráulica | Sim | Sim | ||
| Reboco interno | 3º | Reboco | Sim | Não | Metade da equipe foi para o 2º | Mão de obra |
| Contrapiso | 2º | Contrapiso | Sim | Sim | ||
| Forro de gesso | 1º | Gesso | Não | Não | Revisão do projeto de forro não chegou | Projeto |
| Impermeabilização dos banheiros | 3º | Impermeabilização | Sim | Sim | ||
| Contramarcos | 1º | Esquadrias | Sim | Sim | ||
| Retirada de entulho | 1º ao 4º | Apoio | Sim | Sim |
O PPC da semana é 7 dividido por 10, ou 70%.
A linha do forro mostra por que a coluna Liberada existe. A tarefa entrou no plano sem o projeto revisado. A falha estava no plano montado na reunião, e não na equipe de gesso.
As contas, em palavras
Nenhuma das contas pede fórmula complicada. Descritas em palavras:
- PPC da semana. Conte as linhas da semana com “Sim” na coluna Concluída e divida pelo total de linhas da semana. No Excel em português, a contagem com condição é feita pela função CONT.SE.
- Tarefas que entraram sem liberação. Conte as linhas da semana com “Não” na coluna Liberada. Esse número, acompanhado ao longo do tempo, mede o filtro do lookahead.
- Causas por categoria. Na segunda aba, conte quantas vezes cada categoria aparece nas últimas quatro semanas. Uma tabela dinâmica resolve, e uma contagem com condição por categoria também.
- Média de quatro semanas. Some as tarefas concluídas nas últimas quatro semanas e divida pela soma das tarefas programadas no mesmo período.
A última conta merece explicação. Na tese, Ballard (2000) mostra a tabela de PPC de um dos casos, uma empresa de fachada e cobertura, com quatro linhas por semana: PPC, média móvel de quatro semanas, atividades programadas e atividades concluídas. Os números da média dessa tabela batem com a soma das concluídas dividida pela soma das programadas nas quatro semanas. Na semana 4, por exemplo, são 22 tarefas concluídas de 34 programadas, ou 65%, enquanto a média simples dos quatro percentuais daria 62,5%.
A diferença existe porque a soma dá mais peso à semana que teve mais tarefas. Em obra com plano de tamanho muito variável, as duas contas se afastam, e a soma conta melhor o que aconteceu.
A aba das causas
A lista fechada de categorias pode seguir a que a pesquisa brasileira usa. Moura e Formoso (2009) agruparam as causas de não conclusão em oito categorias, tiradas de Bortolazza: mão de obra, materiais, equipamentos, projeto, planejamento, interferência do cliente, problemas meteorológicos e fornecedores. Nas 75 obras que analisaram, mão de obra e planejamento foram as duas mais frequentes.
Com oito categorias fixas, dá para comparar uma semana com outra e uma obra com outra. Com texto livre, “faltou bloco” e “bloco atrasou” viram duas causas diferentes na contagem.
A frase da coluna Causa continua importante, porque a categoria sozinha é rasa demais para agir. “Materiais” diz pouco. “Bloco entregue na quarta à tarde” já aponta para o pedido. Para descer até a causa que tem dono, o roteiro para investigar o PPC baixo usa os cinco porquês.
Um cuidado: a categoria mão de obra tende a crescer quando a lista é preenchida com pressa. A tarefa que não cabia na semana da equipe também acaba anotada ali. Para separar uma coisa da outra, vale ler antes de culpar a equipe pelo PPC abaixo de 60%.
O gráfico que vai para o quadro
Seis semanas ilustrativas, já com a média de quatro semanas calculada pela soma:
| Semana | Programadas | Concluídas | PPC | Média de 4 semanas |
|---|---|---|---|---|
| 1 | 12 | 8 | 67% | |
| 2 | 10 | 7 | 70% | |
| 3 | 14 | 9 | 64% | |
| 4 | 10 | 7 | 70% | 67% |
| 5 | 11 | 8 | 73% | 69% |
| 6 | 9 | 7 | 78% | 70% |
O gráfico de linha com o PPC semanal e a média, lado a lado, já resolve. A semana ruim isolada pesa menos, e a direção aparece sem conta.
Ballard e Howell (2003) recomendam olhar mais para a direção e a velocidade da mudança do PPC do que para o valor absoluto. O exemplo deles: uma equipe mede 60% na primeira vez, outra mede 30%, e isso quer dizer pouco. O que importa é a rapidez com que cada uma aprende a planejar melhor.
Por isso a coluna Programadas fica no gráfico. Um PPC que sobe enquanto o plano encolhe pode ser a equipe prometendo menos para errar menos.
Onde a planilha costuma quebrar
Quatro hábitos derrubam a planilha mais depressa que qualquer fórmula errada.
O primeiro é copiar a aba da semana anterior para montar a nova. As causas antigas vêm junto, e basta alguém esquecer de apagar para a contagem dobrar. Uma aba única, com a coluna Semana, evita isso.
O segundo é preencher a causa depois da reunião, de memória. Causa anotada na segunda-feira seguinte vira palpite.
O terceiro é deixar o plano entrar na reunião já pronto. A pauta que põe o encarregado para prometer a própria tarefa está em a reunião de sexta em quarenta minutos.
O quarto é mudar a régua no meio do caminho. Passar a contar como concluída a tarefa que ficou em 90% faz o número subir na hora e quebra a comparação com as semanas anteriores.
Para uma obra só, com um engenheiro dedicado, a planilha dá conta por muito tempo. Quando a construtora passa a ter várias obras e cada uma escreve as causas de um jeito, a consolidação começa a tomar a sexta-feira inteira. A resposta curta sobre esse limite está em planilha resolve ou preciso de software, e o que pedir de um software de Lean Construction em cada nível do sistema tem artigo próprio.
A planilha que mostra só o percentual mede a obra. A que guarda as causas ensina a planejar a próxima semana.
Referências
- Ballard, H. G. (2000). The Last Planner System of Production Control. Tese de doutorado, University of Birmingham. https://etheses.bham.ac.uk/id/eprint/4789/
- Ballard, G.; Howell, G. (2003). An Update on Last Planner. IGLC 11, Virginia. https://iglc.net/Papers/Details/227
- Moura, C. B.; Formoso, C. T. (2009). Análise quantitativa de indicadores de planejamento e controle da produção: impactos do Sistema Last Planner e fatores que afetam a sua eficácia. Ambiente Construído, v. 9, n. 3. https://seer.ufrgs.br/index.php/ambienteconstruido/article/view/7695