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Gerenciadora

Lean Construction para quem toca obraEdição de 23 de outubro de 2026

Linha de balanço em planilha: um exemplo de oito pavimentos

Quatro serviços subindo uma torre de oito pavimentos, com uma regra para a data de entrada de cada equipe. Um exemplo resolvido de linha de balanço em planilha, com as contas em palavras e o gráfico montado no Excel.

Rotina de obra · Redação Gerenciadora ·

855 metros quadrados de alvenaria, 30 metros quadrados por dia com uma equipe. Dá 29 dias. Com três equipes, a alvenaria cabe em 10 dias, o mesmo prazo da marcação e do reboco interno do mesmo grupo de serviços.

A conta está numa tabela de exemplo de Mendes Júnior e Heineck (1998), num artigo apresentado no encontro do IGLC em Guarujá. Ela resume a ideia da linha de balanço melhor que qualquer gráfico. Cada equipe é dimensionada para que todas façam a mesma quantidade de pavimentos no mesmo tempo, e a obra anda num ritmo só.

Os autores também contam que a pesquisa deles gerou um modelo em planilha para uso no canteiro. A linha de balanço é uma das vistas de planejamento do guia de Lean Construction do portal, e a que mais se presta a planilha. Este artigo monta uma versão simples desse tipo de planilha, passo a passo. O prédio e as durações do exemplo foram inventados para a conta ficar fácil de acompanhar.

O prédio do exemplo

Uma torre com oito pavimentos tipo e quatro serviços que se repetem em cada um, nesta ordem: alvenaria, instalações embutidas, reboco interno e contrapiso. A obra conta em dias úteis, e o dia 1 é a segunda-feira em que a alvenaria entra no 1º pavimento.

As durações por pavimento, com as equipes que a obra tem:

Serviço Dias úteis por pavimento
Alvenaria 5
Instalações embutidas 4
Reboco interno 5
Contrapiso 3

Entre a saída de uma equipe e a entrada da próxima no mesmo pavimento, a obra quer pelo menos 2 dias úteis livres. Esse intervalo é o pulmão. Ele absorve um atraso pequeno sem travar quem vem atrás.

A aba dos serviços

A primeira aba tem uma linha por serviço. As colunas são poucas:

  • Serviço.
  • Quantidade por pavimento, na unidade em que a equipe mede: metro quadrado de parede, ponto de instalação.
  • Produção diária de uma equipe, na mesma unidade.
  • Número de equipes.
  • Dias por pavimento, que é a quantidade dividida pela produção diária de todas as equipes juntas, arredondada para cima.
  • Pulmão mínimo antes deste serviço, em dias úteis.

É a mesma lógica da tabela de Mendes Júnior e Heineck. A duração com uma equipe sai da quantidade dividida pela produção. Depois, o número de equipes é ajustado até o ritmo ficar perto do ritmo dos outros serviços.

No exemplo, a coluna de dias por pavimento já vem preenchida, para o artigo não ficar preso em produtividade. Na obra, é a coluna que pede conversa com o mestre e os encarregados, que conhecem esse número melhor que o orçamento.

A regra da data de entrada

A segunda aba tem uma linha por serviço e por pavimento, com início e fim. Para o primeiro serviço, a conta é direta. O 1º pavimento começa no dia 1. Cada pavimento seguinte começa no dia seguinte ao fim do anterior.

Para os outros serviços, a pergunta é em que dia a equipe pode entrar no 1º pavimento sem precisar parar mais adiante. A resposta depende de a equipe ser mais rápida ou mais lenta que a da frente.

  • Equipe mais rápida que a da frente. Ela vai encostando a cada pavimento. O aperto aparece no último andar. A data de entrada no 1º sai de trás para frente: o fim desse serviço no 8º, mais o pulmão, mais um dia, menos o tempo que a equipe gasta para subir do 1º ao 8º.
  • Equipe mais lenta que a da frente. Ela vai ficando para trás. O aperto aparece logo no 1º pavimento. A data de entrada é o dia seguinte ao fim do pulmão: o fim do serviço anterior no 1º, mais o pulmão, mais um dia.

Na planilha, dá para não escolher entre os casos. Calcule as duas datas e fique com a maior.

A tabela de datas

Aplicando a regra, com dias úteis contados desde o dia 1:

Pavimento Alvenaria Instalações Reboco Contrapiso
1º 1 a 5 15 a 18 21 a 25 42 a 44
2º 6 a 10 19 a 22 26 a 30 45 a 47
3º 11 a 15 23 a 26 31 a 35 48 a 50
4º 16 a 20 27 a 30 36 a 40 51 a 53
5º 21 a 25 31 a 34 41 a 45 54 a 56
6º 26 a 30 35 a 38 46 a 50 57 a 59
7º 31 a 35 39 a 42 51 a 55 60 a 62
8º 36 a 40 43 a 46 56 a 60 63 a 65

Confira as instalações, que fazem 4 dias por pavimento contra 5 da alvenaria. A alvenaria sai do 8º no dia 40. Com 2 dias de pulmão, as instalações podem entrar no 8º no dia 43. Para chegar lá sem parar, gastando 4 dias por andar, elas precisam começar o 1º no dia 15.

O reboco faz 5 dias por pavimento, mais devagar que as instalações. O aperto fica embaixo. As instalações saem do 1º no dia 18, e o reboco entra no dia 21.

O contrapiso, com 3 dias por pavimento, volta a ser o caso da equipe rápida. Ele só pode entrar no 1º no dia 42, para chegar ao 8º no dia 63, dois dias livres depois de o reboco terminar o último andar.

A torre fecha os quatro serviços no dia 65, ou 13 semanas.

Os pulmões que a tabela esconde

Subtraia, em cada pavimento, o fim de um serviço do início do seguinte. O resultado mostra uma coisa que o Gantt não mostra.

Entre a alvenaria e as instalações, o intervalo livre é de 9 dias no 1º e cai até 2 dias no 8º. Entre as instalações e o reboco, acontece o contrário: começa em 2 e sobe até 9. Entre o reboco e o contrapiso, o 1º pavimento fica 16 dias parado esperando a equipe de contrapiso.

Esses 16 dias são o preço da continuidade. A equipe de contrapiso é rápida, e para não parar no meio da torre ela entra tarde. A obra pode aceitar o pavimento parado embaixo ou mudar a equipe.

Uma saída é ajustar o contrapiso ao ritmo de 5 dias por pavimento, com equipe menor. Pela mesma regra, ele entraria no 1º no dia 28 e terminaria o 8º no dia 67. A linha dele ficaria paralela à do reboco, com 2 dias de pulmão em todos os andares. A torre fecha dois dias depois, com uma equipe menor e um pavimento que não fica esperando. Qual das duas versões serve depende do custo da equipe e do que a obra pretende fazer no pavimento parado.

As fórmulas, em palavras

Nada aqui pede programação:

  • Início do 1º pavimento do primeiro serviço: a data de partida da obra.
  • Início dos pavimentos seguintes: o fim do pavimento anterior do mesmo serviço, mais um dia útil.
  • Fim: o início mais a duração, menos um dia, contando dias úteis. No Excel em português, a função DIATRABALHO soma dias úteis a uma data e aceita uma lista de feriados.
  • Início do 1º pavimento dos outros serviços: a maior entre duas datas. A primeira é o dia seguinte ao fim do pulmão no 1º: o fim do serviço anterior nesse pavimento, mais o pulmão, mais um dia. A segunda parte do mesmo cálculo no último pavimento (fim do serviço anterior, mais o pulmão, mais um dia) e desconta a duração por pavimento multiplicada pelo número de pavimentos menos um.

Com as datas em dias úteis numerados, como no exemplo, as contas viram somas simples. Para trocar por datas do calendário, basta uma coluna que converta o número do dia útil em data.

O gráfico

O gráfico sai de um gráfico de dispersão com linhas. No eixo horizontal, o dia. No eixo vertical, o pavimento.

Cada serviço vira duas séries. A primeira liga os pontos de início em cada pavimento, e a segunda liga os pontos de fim. As duas linhas formam uma faixa inclinada, e a largura da faixa é o tempo que a equipe passa em cada andar. Uma cor por serviço basta.

No exemplo, a faixa do contrapiso aparece mais em pé que as outras, porque ele sobe mais depressa. Onde duas faixas quase se encostam, o pulmão é pequeno. Onde elas se cruzariam, duas equipes estariam no mesmo pavimento ao mesmo tempo. Como ler esse desenho, para quem nunca usou, está no artigo sobre linha de balanço na obra.

Do cronograma para a planilha

A planilha acima foi montada à mão, a partir de durações. Na obra em andamento, as datas costumam estar no MS Project. Se cada tarefa repetitiva tiver o pavimento num campo próprio, a exportação do .mpp já traz serviço, local, início e fim, e a segunda aba se preenche sozinha. O motivo para não manter dois cronogramas está em Gantt e linha de balanço, e o caminho para manter o arquivo do Project como plano oficial está em o MS Project como fonte da verdade.

O passo seguinte ao ritmo igual é o takt, em que o prédio é dividido em zonas e cada equipe tem um prazo fixo por zona. O caso de fachada que mostrou o método funcionando está em takt time na obra vertical.

Quando a planilha pesa

O limite da planilha aparece no replanejamento. Cada atraso pede refazer a tabela de datas e conferir se o gráfico ainda bate com o .mpp. Com quatro serviços e oito pavimentos, isso leva minutos. Com quinze serviços em três torres, a planilha passa a tomar a tarde do planejador.

Nesse ponto, vale olhar o critério de linha de balanço no comparativo de ferramentas de planejamento de obra. Ele registra, para cada ferramenta, se o gráfico sai do cronograma ou precisa ser redesenhado.

Para a primeira tentativa, a planilha deste artigo e uma tarde com os encarregados costumam bastar. O número que mais vale levar para essa tarde é a duração por pavimento de cada equipe, dita por quem faz o serviço.

Referências

  • Mendes Júnior, R.; Heineck, L. F. M. (1998). Preplanning Method for Multi-Story Building Construction Using Line of Balance. IGLC 6, Guarujá. https://iglc.net/Papers/Details/53

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