Ir para o conteúdo
Gerenciadora

Lean Construction para quem toca obraEdição de 16 de outubro de 2026

Medição de avanço em campo: o que registrar

A planilha de medição diz quanto foi feito. Para planejar a semana seguinte, falta saber em que local o serviço terminou e se ele liberou a equipe que vem atrás.

Rotina de obra · Redação Gerenciadora ·

Fim de mês, medição da alvenaria. A planilha diz 62% do serviço executado, dentro do previsto. O empreiteiro recebe, o relatório da obra sai verde.

Na segunda, o encarregado do reboco pergunta em que pavimento pode entrar. A resposta é desconfortável. A alvenaria está espalhada do 3º ao 9º, com cada pavimento faltando um trecho. Nenhum está pronto para receber o reboco.

O percentual esconde o local

Kim e Ballard (2000), num artigo apresentado no encontro do IGLC em Brighton, examinam o método do valor agregado, a técnica de controle que soma o avanço de cada serviço pelo orçamento. A pergunta do título é se esse método atrapalha o fluxo de trabalho.

O ponto central dos autores é que o método trata cada serviço como independente dos outros. Uma hora agregada vale o mesmo que qualquer outra, não importa se liberou ou não a equipe seguinte.

O artigo traz um exemplo com uma equipe A que deveria produzir 25 unidades por semana durante um mês. Num caso, ela produz 25 em cada semana. No outro, produz 10, 30, 15 e 45. Nos dois, o mês fecha com 100 unidades, dentro do orçamento, e o método dá sinal verde para a equipe A.

A equipe B, que depende da produção de A, sofre no segundo caso. Quando B atrasa, o controle aponta B. Os autores observam que o sistema de valor agregado não mostra que o fluxo irregular veio de A.

Há um segundo exemplo, ainda mais próximo da obra. A equipe A produz na sequência que é melhor para a própria produtividade, que nem sempre atende as áreas de que a equipe seguinte precisa. A medição credita o avanço do mesmo jeito. A alvenaria do começo deste texto, com números fictícios, é esse caso: 62% de serviço feito, nenhum pavimento liberado.

O que a planilha precisa ganhar

A medição para pagamento continua necessária. Ela só precisa de algumas colunas a mais para servir também ao planejamento. A sugestão da Redação é registrar, para cada serviço:

  • O local, no nível em que a obra planeja: pavimento ou zona.
  • A data em que o serviço terminou naquele local.
  • Se o local foi liberado para a equipe seguinte, com sim ou não.
  • Quem conferiu, com nome.
  • Uma foto com data, tirada do mesmo ponto em cada visita.

A coluna mais importante é a terceira. “Liberado para o próximo” é a informação que o encarregado do reboco precisava na segunda-feira, e que a planilha de medição costuma não trazer.

Terminado por local, sem meio-termo

Para o planejamento, um critério simples ajuda: o serviço no local está pronto ou não está. Como regra prática, a obra mede o avanço físico com o percentual que quiser para pagar o empreiteiro, mas o registro de liberação só aceita sim ou não.

Isso conversa com o PPC da reunião semanal. Pela definição de Ballard (2000), o PPC divide as tarefas concluídas pelas planejadas, e a tarefa que ficou pela metade não está entre as concluídas. A medição por local com sim ou não usa a mesma lógica, aplicada ao avanço.

Unidades pequenas mostram o problema antes

Frandson, Berghede e Tommelein (2013), no caso de uma fachada planejada com takt de quatro dias, listam entre as vantagens do método o retorno imediato sobre o avanço. Como a unidade de controle é pequena, da ordem de um ou poucos dias, há muitas medições dentro de uma fase de alguns meses. Os autores também citam a possibilidade de medir o avanço em lotes pequenos para fins de pagamento.

Mesmo sem takt, a lição vale. A medição mensal diz que a alvenaria está atrasada quando o atraso já tem um mês. A medição semanal por pavimento mostra, na primeira semana, que o 5º pavimento ficou com um trecho aberto.

O incentivo errado

Kim e Ballard (2000) apontam mais um problema. Para que a variação de custo fique positiva, o gestor tenta gastar o mínimo possível com a equipe. A equipe enxuta demais fica sobrecarregada, e o fluxo para as equipes seguintes fica menos confiável.

Na obra, o mesmo incentivo aparece quando a medição premia volume. O empreiteiro de alvenaria ganha mais abrindo frente em vários pavimentos do que fechando um de cada vez. Quem paga por metro quadrado sem olhar o local recebe metro quadrado espalhado.

Uma saída é combinar no contrato que parte do pagamento depende da liberação do local. Essa decisão é comercial e foge do campo do planejamento, mas o planejamento precisa levar o problema para a mesa.

A visita de campo

O registro bom sai de uma visita feita sempre do mesmo jeito. Na opinião da Redação, funciona assim: o técnico sobe com a planilha impressa ou no celular, pavimento por pavimento, no mesmo dia da semana. Em cada local, marca o que terminou e o que foi liberado. Depois tira a foto do ponto de sempre.

A visita toma algumas horas por semana e economiza a discussão da segunda-feira.

Referências

Leia também

Antes de culpar a equipe pelo PPC abaixo de 60%

Quando o planejado concluído cai, a primeira explicação costuma ser ritmo de equipe. O que as causas registradas em obras brasileiras mostram, e quatro perguntas para fazer antes de cobrar o pavimento.

· Rotina de obra

Restrição de suprimento: até quando dá para pedir

A data-limite do pedido sai de uma conta de trás para frente, a partir do dia em que a equipe precisa do material. Como fazer a conta, e por que o lookahead de seis semanas não enxerga os itens mais longos.

· Rotina de obra

A reunião diária de quinze minutos

Quinze minutos em pé, no mesmo lugar e na mesma hora, antes de a obra pegar ritmo. O que cada encarregado diz, o que fica para depois e como a diária conversa com a reunião semanal.

· Rotina de obra