Medição de avanço em campo: o que registrar
A planilha de medição diz quanto foi feito. Para planejar a semana seguinte, falta saber em que local o serviço terminou e se ele liberou a equipe que vem atrás.
Fim de mês, medição da alvenaria. A planilha diz 62% do serviço executado, dentro do previsto. O empreiteiro recebe, o relatório da obra sai verde.
Na segunda, o encarregado do reboco pergunta em que pavimento pode entrar. A resposta é desconfortável. A alvenaria está espalhada do 3º ao 9º, com cada pavimento faltando um trecho. Nenhum está pronto para receber o reboco.
O percentual esconde o local
Kim e Ballard (2000), num artigo apresentado no encontro do IGLC em Brighton, examinam o método do valor agregado, a técnica de controle que soma o avanço de cada serviço pelo orçamento. A pergunta do título é se esse método atrapalha o fluxo de trabalho.
O ponto central dos autores é que o método trata cada serviço como independente dos outros. Uma hora agregada vale o mesmo que qualquer outra, não importa se liberou ou não a equipe seguinte.
O artigo traz um exemplo com uma equipe A que deveria produzir 25 unidades por semana durante um mês. Num caso, ela produz 25 em cada semana. No outro, produz 10, 30, 15 e 45. Nos dois, o mês fecha com 100 unidades, dentro do orçamento, e o método dá sinal verde para a equipe A.
A equipe B, que depende da produção de A, sofre no segundo caso. Quando B atrasa, o controle aponta B. Os autores observam que o sistema de valor agregado não mostra que o fluxo irregular veio de A.
Há um segundo exemplo, ainda mais próximo da obra. A equipe A produz na sequência que é melhor para a própria produtividade, que nem sempre atende as áreas de que a equipe seguinte precisa. A medição credita o avanço do mesmo jeito. A alvenaria do começo deste texto, com números fictícios, é esse caso: 62% de serviço feito, nenhum pavimento liberado.
O que a planilha precisa ganhar
A medição para pagamento continua necessária. Ela só precisa de algumas colunas a mais para servir também ao planejamento. A sugestão da Redação é registrar, para cada serviço:
- O local, no nível em que a obra planeja: pavimento ou zona.
- A data em que o serviço terminou naquele local.
- Se o local foi liberado para a equipe seguinte, com sim ou não.
- Quem conferiu, com nome.
- Uma foto com data, tirada do mesmo ponto em cada visita.
A coluna mais importante é a terceira. “Liberado para o próximo” é a informação que o encarregado do reboco precisava na segunda-feira, e que a planilha de medição costuma não trazer.
Terminado por local, sem meio-termo
Para o planejamento, um critério simples ajuda: o serviço no local está pronto ou não está. Como regra prática, a obra mede o avanço físico com o percentual que quiser para pagar o empreiteiro, mas o registro de liberação só aceita sim ou não.
Isso conversa com o PPC da reunião semanal. Pela definição de Ballard (2000), o PPC divide as tarefas concluídas pelas planejadas, e a tarefa que ficou pela metade não está entre as concluídas. A medição por local com sim ou não usa a mesma lógica, aplicada ao avanço.
Unidades pequenas mostram o problema antes
Frandson, Berghede e Tommelein (2013), no caso de uma fachada planejada com takt de quatro dias, listam entre as vantagens do método o retorno imediato sobre o avanço. Como a unidade de controle é pequena, da ordem de um ou poucos dias, há muitas medições dentro de uma fase de alguns meses. Os autores também citam a possibilidade de medir o avanço em lotes pequenos para fins de pagamento.
Mesmo sem takt, a lição vale. A medição mensal diz que a alvenaria está atrasada quando o atraso já tem um mês. A medição semanal por pavimento mostra, na primeira semana, que o 5º pavimento ficou com um trecho aberto.
O incentivo errado
Kim e Ballard (2000) apontam mais um problema. Para que a variação de custo fique positiva, o gestor tenta gastar o mínimo possível com a equipe. A equipe enxuta demais fica sobrecarregada, e o fluxo para as equipes seguintes fica menos confiável.
Na obra, o mesmo incentivo aparece quando a medição premia volume. O empreiteiro de alvenaria ganha mais abrindo frente em vários pavimentos do que fechando um de cada vez. Quem paga por metro quadrado sem olhar o local recebe metro quadrado espalhado.
Uma saída é combinar no contrato que parte do pagamento depende da liberação do local. Essa decisão é comercial e foge do campo do planejamento, mas o planejamento precisa levar o problema para a mesa.
A visita de campo
O registro bom sai de uma visita feita sempre do mesmo jeito. Na opinião da Redação, funciona assim: o técnico sobe com a planilha impressa ou no celular, pavimento por pavimento, no mesmo dia da semana. Em cada local, marca o que terminou e o que foi liberado. Depois tira a foto do ponto de sempre.
A visita toma algumas horas por semana e economiza a discussão da segunda-feira.
Referências
- Kim, Y.-W.; Ballard, G. (2000). Is the Earned-Value Method an Enemy of Work Flow?. IGLC 8, Brighton. https://iglc.net/Papers/Details/108
- Frandson, A.; Berghede, K.; Tommelein, I. D. (2013). Takt Time Planning for Construction of Exterior Cladding. IGLC 21, Fortaleza. https://iglc.net/Papers/Details/902
- Ballard, H. G. (2000). The Last Planner System of Production Control. Tese de doutorado, University of Birmingham. https://etheses.bham.ac.uk/id/eprint/4789/